Inovação Contínua e Inovação Disruptiva

O novo só é novo quando é novo para alguém.

Essas duas afirmações demonstram bem o que se espera da inovação quando se pensa em mercado. Ao mergulhar nessa sopa de novidades que é o mundo do desenvolvimento de produtos, negócios, modelos e tecnologias, é fácil esquecer das bases que deveriam guiar qualquer processo de inovação:

  • por que?
  • para quem?
  • como?
  • quanto?
  • quando?

Essas perguntas estão bem longe de serem novas, e continuam válidas quando aplicadas a qualquer processo de inovação. Mas antes de respondê-las, que tal entender o que é inovação?

O conceito de inovação

A história da inovação às vezes se mistura com a história da criatividade. Para muitos, ser criativo é sinônimo de ser inovador, o que poderia ser verdade antes do início da revolução industrial e do fenômeno do consumismo que movimenta o mundo atual.

Com o tempo, as ideias de criar e inovar começaram a ganhar contornos diferentes. A criatividade ficou cada vez mais associada à arte, à novidade para satisfação pessoal de superação e expressão própria. Já a inovação passou a ser considerada como um talento para resolver problemas de maneiras diferentes, ou seja, mais ligada a uma questão de praticidade e pragmatismo, frequentemente relacionada a novidades tecnológicas – equivocadamente, diga-se de passagem.

Em tempos e Google, Apple, Amazon, Uber, AirBnB e tantas outras empresas consideradas como símbolos da inovação, o conceito tomou o contorno de quebra de paradigmas, ou seja, de se construir coisas absolutamente novas, jamais vistas.

Obviamente, não é bem assim.

Há duas abordagens diferentes para se entender a inovação: a disruptiva e a contínua (também chamada de incremental).

O que essas empresas fizeram foi, em grande parte, disruptivo: “inventaram” novos mercados, novos produtos, novos processos que ninguém havia pensado. Com isso, revolucionaram seus setores através da solução de problemas que as pessoas nem sabiam que estavam lá. E conquistaram o topo da cadeia alimentar empresarial, estando entre as maiores empresas do mundo.

A abordagem disruptiva, no entanto e apesar de toda algazarra, é rara. Poucas empresas ou pessoas conseguem criar um negócio completamente novo, ou redesenhar um processo comercial de maneira inédita, ou revolucionar um produto a tal ponto que criam uma nova categoria. A disrupção é resultado de um conjunto de variáveis difíceis de se prever e controlar. Muitas delas não dependem da vontade de quem está inovando, e sim de uma conjuntura de fatores econômicos, sociais, culturais, científicos, tecnológicos e até mesmo pessoais – daí o aspecto quase fanático por personalidades como Steve Jobs, Elon Musk e Mark Zuckerberg, para citar alguns somente na área de tecnologia. Ou seja, é extremamente complicado “planejar” para inovar disruptivamente.

Entretanto, a outra abordagem – inovação contínua – acontece com tanta frequência que às vezes nem é percebida. Esse tipo de inovação consiste em fazer de maneira diferente – melhor, mais rápida, mais eficiente, com menor custo, utilizando menos recursos etc. – tarefas que já são realizadas de maneira rotineira. Isso envolve otimização de processos, substituição de materiais, adoção de tecnologias, capacitação de pessoas, pesquisas junto ao consumidor… enfim, há um enorme repertório de ações para se inovar de maneira contínua e, dessa forma, gerar ganhos para as empresas. Inovar continuamente é simplesmente observar o que acontece no dia a dia e fazer as coisas de maneira diferente, melhor.

Para fechar a questão do conceito, vale a pena citar o Marco Legal de Ciência, Tecnologia e Inovação (Lei nº 13.243/2016), que define inovação como “introdução de novidade ou aperfeiçoamento no ambiente produtivo e social que resulte em novos produtos, serviços ou processos ou que compreenda a agregação de novas funcionalidades ou características a produto, serviço ou processo já existente que possa resultar em melhorias e em efetivo ganho de qualidade ou desempenho”. Está muito mais para inovação contínua do que para disrupção, concorda?

E as bases da inovação?

De volta às nossas perguntas!

  • por que?
  • para quem?
  • como?
  • quanto?
  • quando?

Muito simples, na verdade: a inovação precisa ter sentido. Para o mercado, não se pode inovar somente pelo prazer de inovar. É preciso dar um foco, um propósito – ou seja, dar resposta a essas perguntas em algum momento do processo. Caso contrário, será mais um caso de amor platônico à ideia de inovar, e não inovação propriamente dita.

Se você conhece alguém que tenha esse tipo de amor platônico, talvez seja melhor sugerir um caminho na vida mais voltado à arte – ou seja, à criação voltada a um propósito pessoal (nada de errado nisso) – do que a uma estrada mais compromissada com o pragmatismo e à aplicabilidade concreta, que é a inovação.

Bruno Souza é bacharel em Comunicação Social pelo Centro Universitário de Brasília, Especialista em Gestão de Negócios pela Fundação Dom Cabral e Mestre em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina. Atualmente é Diretor Técnico no Instituto Modal.

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